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Pioneirismo da Mulher Potiguar

 

A história do Rio Grande do Norte é marcada pela presença de mulheres que se destacaram em diferentes períodos e campos de atuação. Da resistência durante o período colonial à educação, à literatura, ao jornalismo e à participação política, suas trajetórias ajudam a compreender importantes transformações da sociedade potiguar.

Em alguns desses episódios, o Rio Grande do Norte alcançou projeção nacional. No final da década de 1920, o estado tornou-se cenário de acontecimentos decisivos para a participação feminina na política brasileira. A Lei Estadual nº 660, de 1927, estabeleceu que poderiam votar e ser votados, sem distinção de sexo, os cidadãos que reunissem as condições previstas na legislação. Nesse contexto, Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira mulher brasileira admitida como eleitora, enquanto outras potiguares também requereram seu alistamento e participaram das eleições seguintes.

Pouco depois, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes, em 1928, tornando-se a primeira mulher eleita para chefiar um governo municipal no Brasil. O pioneirismo também alcançaria o Poder Legislativo, com mulheres como Joana Cacilda Bessa, eleita em Pau dos Ferros a primeira vereadora do Brasil, e Maria do Céu Fernandes, primeira mulher a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.

Mas essa história não se restringe à política. Antes e depois dessas conquistas, mulheres potiguares tiveram atuação relevante na educação, na literatura, no jornalismo, na vida intelectual e em diferentes movimentos sociais. Personagens como Nísia Floresta, Isabel Gondim, Auta de Souza, Palmyra Wanderley, Myriam Coeli e Zila Mamede representam diferentes momentos dessa presença feminina na história cultural do estado.

Esta página reúne algumas dessas trajetórias. Separadas por séculos, circunstâncias e campos de atuação, elas revelam diferentes formas de participação das mulheres na construção da história do Rio Grande do Norte.

Século XVII

Clara Camarão, Índia e Guerreira

Clara Camarão tornou-se uma das personagens mais emblemáticas da presença indígena e feminina na história do Rio Grande do Norte. Segundo A Mulher Potiguar – Cinco Séculos de Presença, publicação da Fundação José Augusto, pertencia ao povo potiguara que habitava as margens do rio Potengi e teria nascido provavelmente em Aldeia Velha, atual região de Igapó, em Natal. Seu nome indígena original, assim como informações precisas sobre seu nascimento e morte, não são conhecidos.

Batizada com o nome de Clara, casou-se com Antônio Filipe Camarão, o indígena Poti, uma das principais lideranças potiguares que combateram ao lado das forças luso-brasileiras contra a ocupação holandesa no Nordeste. Guerreira, rompeu a secular divisão de trabalho da tribo ao se afastar dos afazeres domésticos, no tempo necessário, para participar de batalhas. A tradição histórica registra que Clara acompanhou o marido nos conflitos e participou diretamente dos combates, chegando a comandar um grupo de mulheres indígenas.

Os relatos associam sua trajetória a diferentes episódios da resistência aos holandeses. Entre eles destaca-se a batalha de Porto Calvo, em 1637, quando Clara teria combatido à frente de guerreiras potiguares. A publicação também situa sua participação na Primeira Batalha dos Guararapes, em 1648, ao lado de Filipe Camarão. Após a morte do marido, capitão-mor dos índios do Brasil, ocorrida naquele mesmo ano, por malária, os registros sobre sua trajetória tornam-se ainda mais escassos. Segundo a obra, é possível que tenha retornado à região de Aldeia Velha, onde teria vivido seus últimos anos.

Ao longo dos séculos, a memória de Clara Camarão ultrapassou os episódios militares a ela atribuídos. Sua figura tornou-se símbolo da participação indígena e feminina na história colonial brasileira e permanece especialmente ligada à memória histórica do Rio Grande do Norte.

Em 2017, esse reconhecimento ganhou dimensão nacional: Clara Camarão teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília, por meio da Lei nº 13.422, de 27 de março de 2017.

Fonte: A Mulher Potiguar – Cinco Séculos de Presença. Natal-RN, Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine-CEPEJUL, Fundação José Augusto, 1999

 

Século XVIII

Clara de Castro, a destemida

Clara Joaquina de Almeida e Castro, irmã do padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro — o Frei Miguelinho —, nasceu em Natal, provavelmente no século XVIII (~1769) e faleceu no Ceará. Sua trajetória ficou ligada à Revolução Pernambucana de 1817, movimento de inspiração republicana que alcançou o Rio Grande do Norte e teve em Miguelinho um de seus principais representantes.

Clara acompanhou de perto o envolvimento do irmão com o movimento revolucionário e prestou-lhe auxílio nos momentos que antecederam sua prisão. Relatos históricos atribuem a ela participação na destruição de documentos que poderiam comprometer outros envolvidos na revolta, numa tentativa de protegê-los da repressão que se seguiu ao fracasso do movimento.

Após a prisão de Miguelinho, Clara também sofreu as consequências da perseguição aos revolucionários. Sua trajetória permaneceu associada à memória de 1817 e à defesa do irmão, que seria levado a Salvador, condenado e executado em junho daquele ano.

Embora sua atuação seja muito menos documentada que a dos principais líderes da revolução, Clara de Castro integra a memória histórica norte-rio-grandense como uma das mulheres relacionadas aos acontecimentos políticos que antecederam a Independência do Brasil.

Fonte: A Mulher Potiguar – Cinco Séculos de Presença. Natal-RN, Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine-CEPEJUL, Fundação José Augusto, 1999

Século XIX

Nísia Floresta, intelectual e pioneira

Dionísia Gonçalves Pinto, conhecida pelo pseudônimo Nísia Floresta Brasileira Augusta, nasceu em Papari, atual município de Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, no início do século XIX (1810*). Escritora, educadora e intelectual, tornou-se uma das vozes pioneiras no Brasil na defesa da educação e dos direitos das mulheres. Escreveu 15 obras, sendo 3 livros em francês e um em italiano.

Em 1832, aos 22 anos, publicou Direitos das mulheres e injustiça dos homens, obra que questionava a condição feminina na sociedade brasileira e defendia especialmente o acesso das mulheres à educação e à vida intelectual. O livro é considerado um marco da produção escrita feminina no Brasil do século XIX. Nísia também publicou artigos na imprensa e, ao longo de sua obra, abordou temas como a educação, a escravidão e a situação dos povos indígenas.

Sua atuação não se limitou à literatura. Como educadora, fundou e dirigiu instituições de ensino destinadas às meninas, defendendo uma formação mais ampla do que aquela tradicionalmente oferecida às mulheres de seu tempo. No Colégio Augusto, fundado no Rio de Janeiro em 1838, propôs um modelo educacional que incluía disciplinas então pouco comuns na educação feminina.

Nísia viveu durante muitos anos na Europa, onde manteve contato com importantes intelectuais e continuou escrevendo e publicando. Morreu em Rouen, na França, em 1885. Décadas mais tarde, sua cidade natal, Papari, passaria a chamar-se Nísia Floresta, em homenagem à escritora.

Pela amplitude de sua obra e pelo pioneirismo de suas ideias, Nísia Floresta permanece como uma das principais personagens da história intelectual do Rio Grande do Norte e uma referência na história da educação e da participação feminina na sociedade brasileira.

*Várias fontes usam 1810, mas a Fundação Joaquim Nabuco registra 12 de outubro de 1809. O próprio Senado, numa edição recente de Opúsculo Humanitário, reconhece a incerteza como “1809 ou 1810”.

Isabel Gondim, a educadora

Isabel Urbana de Albuquerque Gondim nasceu em Papari, atual município de Nísia Floresta, em 1839, e faleceu em Natal, em 1933. Professora, escritora, poetisa e historiadora, dedicou grande parte de sua trajetória à educação e à produção intelectual no Rio Grande do Norte.

Em 1866, assumiu, por concurso, uma cadeira de ensino primário no bairro da Ribeira, em Natal. Ao longo de sua atuação como educadora, defendeu a valorização do magistério e ampliou sua dedicação à educação feminina, numa época em que o acesso das mulheres à instrução ainda era bastante limitado.

A experiência em sala de aula também se refletiu em sua produção intelectual. Em 1873, escreveu Reflexões às minhas alunas, obra destinada à educação feminina e posteriormente publicada em diferentes edições. Nela, abordava temas relacionados à formação, à educação, à família e à conduta social das jovens, refletindo concepções educacionais próprias de seu tempo. Estudos recentes mostram que a obra alcançou circulação e repercussão na imprensa brasileira daquele período.

Isabel Gondim também se dedicou à pesquisa e à escrita da história, sendo considerada uma das pioneiras da historiografia norte-rio-grandense. Entre seus trabalhos está Sedição de 1817 na Capitania, ora Estado do Rio Grande do Norte, dedicado aos acontecimentos da Revolução de 1817 no território potiguar. Sua produção reuniu ainda poesia, teatro e obras voltadas ao ensino.

Seu reconhecimento alcançou importantes instituições culturais: Isabel Gondim tornou-se a primeira mulher admitida como sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, além de integrar o Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano.

Sua longa trajetória fez de Isabel Gondim uma das referências da educação e da vida intelectual potiguar entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Ritinha Coelho, um gesto para a história

Rita Antônia Coelho, conhecida como Ritinha Coelho, nasceu em Natal, em data não registrada, e faleceu na capital potiguar em 1857*. Casada com um militar, entrou para a memória do Rio Grande do Norte por um gesto de solidariedade ocorrido durante os acontecimentos que marcaram o fim da Revolução Pernambucana de 1817 na então Capitania do Rio Grande.

Com a derrota do movimento revolucionário, André de Albuquerque Maranhão, que havia liderado a revolta no território potiguar e assumido o governo da Capitania, foi deposto, ferido e levado preso para a Fortaleza dos Reis Magos. Morreu em consequência dos ferimentos e seu corpo foi conduzido para sepultamento na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação.

Segundo os registros históricos, durante o percurso Ritinha Coelho fez parar a escolta que transportava o corpo e o cobriu com uma esteira, oferecendo-lhe uma mortalha. Em meio à repressão que se seguiu ao movimento de 1817, a atitude adquiriu especial significado por representar um gesto público de respeito e dignidade diante daquele que havia sido derrotado e deposto.

Foi esse episódio aparentemente simples que preservou seu nome na história potiguar. Mais do que uma participação política ou militar, a memória de Ritinha Coelho está associada a um ato de humanidade realizado em circunstâncias de violência e tensão política.

*Câmara Cascudo registra que Ritinha foi sepultada em 21 de janeiro de 1857, na Igreja do Bom Jesus das Dores, na Ribeira.

Ana Floriano, rebelde e valente

Ana Rodrigues Braga, conhecida como Ana Floriano, entrou para a história de Mossoró como uma das principais lideranças do episódio conhecido como Motim das Mulheres, ocorrido em 1875*, durante o Segundo Reinado.

Naquele ano, a regulamentação do recrutamento para o Exército e a Armada provocou forte reação em diferentes localidades do país. Em Mossoró, a resistência ganhou uma característica singular: cerca de trezentas mulheres mobilizaram-se contra o alistamento dos homens da comunidade. Lideradas por Ana Floriano e acompanhadas por outras mulheres, entre elas Maria Filgueira e Joaquina de Souza, percorreram as ruas da cidade e destruíram editais, listas e documentos relacionados ao recrutamento.

Os relatos históricos registram que as manifestantes retiraram documentos relacionados ao alistamento e rasgaram publicamente os papéis de convocação. O movimento ocorreu em um período de diversas manifestações populares no Nordeste contra medidas do governo imperial e costuma ser relacionado ao ambiente de insatisfação que também produziu as revoltas conhecidas como Quebra-Quilos.

A mobilização ficou conhecida como Motim das Mulheres de Mossoró e tornou-se um dos episódios mais lembrados da história social da cidade. À frente daquele grupo, Ana Floriano passou à memória potiguar como símbolo da participação feminina em uma manifestação popular ocorrida ainda durante o Brasil Império.

Fontes respeitáveis usam a data 30 de agosto e outras 4 de setembro de 1875.

Auta de Souza, a poetisa mística

Auta Henriqueta de Souza nasceu em Macaíba, em 12 de setembro de 1876. Ainda criança perdeu os pais, ambos vítimas da tuberculose, e passou a viver sob os cuidados da avó materna. Estudou no Colégio São Vicente de Paula, no Recife, dirigido por religiosas francesas, onde teve contato com a literatura e aprendeu francês.

De volta ao Rio Grande do Norte, começou a escrever versos ainda jovem e participou ativamente da vida literária de seu tempo. Colaborou com jornais e revistas de Natal, Recife e outras cidades, utilizando também os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves. Seus poemas chegaram a circular em publicações como A República, A Mensageira e O Paiz.

Em 1900, publicou seu único livro, Horto, originalmente intitulado Dálias. A obra, prefaciada por Olavo Bilac, reuniu poemas marcados pela religiosidade, pela memória, pelo amor, pela dor e pela presença constante da morte. O livro alcançou repercussão além do Rio Grande do Norte e recebeu novas edições após a morte da autora. A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras registra que a primeira edição se esgotou rapidamente e foi recebida pela crítica literária nacional.

A tuberculose, doença que marcara sua história familiar, também atingiu Auta. Ela faleceu em Natal, em 7 de fevereiro de 1901, com apenas 24 anos. Sua curta existência, entretanto, deixou uma obra que atravessou gerações e lhe assegurou lugar de destaque na literatura potiguar e brasileira.

Anos depois, Luís da Câmara Cascudo dedicou-lhe o estudo Vida breve de Auta de Souza e a definiu como uma das grandes expressões da poesia mística brasileira. Auta tornou-se ainda patrona da cadeira nº 3 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, reconhecimento da permanência de sua obra na história cultural do estado.
Fonte: A Mulher Potiguar – Cinco Séculos de Presença. Natal-RN, Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine-CEPEJUL, Fundação José Augusto, 1999

Século XX

Alzira Soriano, a primeira prefeita eleita do Brasil e da América Latina

Luíza Alzira Soriano Teixeira nasceu em Jardim de Angicos, em 29 de abril de 1897. Sua trajetória entraria para a história política brasileira pouco mais de três décadas depois, quando o Rio Grande do Norte se tornou protagonista das primeiras experiências de participação eleitoral feminina no país.

Em 1927, a legislação eleitoral potiguar passou a admitir o direito de votar e ser votado sem distinção de sexo. No ano seguinte, incentivada por Bertha Lutz e apoiada pelo então governador Juvenal Lamartine, Alzira candidatou-se pelo Partido Republicano à Prefeitura de Lajes. Venceu as eleições de 1928 com cerca de 60% dos votos válidos e tomou posse em 1º de janeiro de 1929, tornando-se a primeira mulher eleita prefeita no Brasil e na América Latina.

A eleição alcançou repercussão para além do país e chegou a ser noticiada pelo jornal norte-americano The New York Times. À frente da Prefeitura de Lajes, Alzira promoveu obras de infraestrutura, com construção de estradas, escolas e mercados públicos distritais, além de melhorias na iluminação pública.

Seu mandato foi interrompido em 1930, após a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder e alterou a organização política dos estados e municípios. Anos depois, com a redemocratização do país, Alzira retornou à vida pública. Foi eleita vereadora de Jardim de Angicos, em 1947, e reelegeu-se por mais duas vezes e chegou a presidir a Câmara Municipal.

Alzira Soriano faleceu em 28 de maio de 1963. Sua eleição em Lajes permanece como um dos principais marcos do pioneirismo político feminino do Rio Grande do Norte e ocupa lugar de destaque na própria história eleitoral brasileira.

Celina Guimarães, a primeira eleitora

Celina Guimarães Viana entrou para a história política brasileira ao tornar-se, em 25 de novembro de 1927, a primeira mulher oficialmente registrada como eleitora no Brasil. Professora em Mossoró, tinha 29 anos quando requereu sua inclusão na lista de eleitores do município. O reconhecimento de seu alistamento tornou-se também um marco do pioneirismo político feminino na América Latina.

A conquista foi possibilitada pela Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, que estabeleceu no Rio Grande do Norte que poderiam votar e ser votados os cidadãos que reunissem as condições previstas em lei, sem distinção de sexo. O estado antecipava, assim, em alguns anos o reconhecimento do voto feminino em âmbito nacional, que somente seria incorporado à legislação eleitoral brasileira com o Código Eleitoral de 1932.

O pioneirismo de Celina teve repercussão além de Mossoró e seu alistamento estimulou outras mulheres potiguares a requererem o mesmo direito. Ainda nas eleições de 1928, cerca de 15 mulheres conseguiram exercer esse direito político do voto de forma pioneira em todo Brasil.

A experiência norte-rio-grandense tornou-se uma referência para a ampliação dos direitos políticos femininos no país. O nome de Celina Guimarães permanece, assim, associado não apenas à história de Mossoró e do Rio Grande do Norte, mas a um momento decisivo da própria história eleitoral brasileira.

Hoje, seu pioneirismo também está registrado institucionalmente: a Escola Judiciária Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte leva seu nome, e a Câmara dos Deputados denominou Ala Celina Guimarães Viana – Patrona do Voto Feminino no Brasil o espaço onde se encontra a Galeria Histórica das Deputadas Federais.

Joana Cacilda Bessa, pioneira na representação política

Joana Cacilda de Bessa nasceu em 26 de setembro de 1898, no território do atual município de Itaú, no Rio Grande do Norte. Sua trajetória está ligada ao período pioneiro da participação feminina na política potiguar, iniciado após a Lei Estadual nº 660, de 1927, que permitiu às mulheres do estado votar e serem votadas.

Residente em Pau dos Ferros, Joana esteve entre as primeiras eleitoras do município. Em 1928, foi eleita para a Intendência Municipal — função correspondente, à época, ao atual cargo de vereador —, recebendo 725 votos. Sua posse ocorreu em fevereiro de 1929. Documentos e estudos sobre a participação feminina nas eleições brasileiras registram sua eleição entre os marcos pioneiros da representação política das mulheres no país, como a primeira vereadora.

Joana integrou, assim, a geração de mulheres potiguares que transformou o Rio Grande do Norte em cenário de acontecimentos decisivos para a história do voto feminino no Brasil. No mesmo pleito de 1928, Júlia Alves Barbosa, em Natal, também foi eleita intendente municipal, enquanto Alzira Soriano, em Lajes, tornou-se a primeira mulher eleita prefeita no Brasil.

Júlia Barbosa, pioneira e primeira vereadora do Natal

Júlia Alves Barbosa Cavalcanti nasceu em Natal, em 1898. Professora e participante ativa da vida pública potiguar, teve atuação destacada tanto na educação quanto no movimento que, no final da década de 1920, abriu às mulheres do Rio Grande do Norte novas possibilidades de participação política.

Pouco depois da aprovação da Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, que permitiu votar e ser votado sem distinção de sexo, Júlia apresentou, em Natal, seu pedido de inscrição eleitoral. Seu requerimento, datado de 22 de novembro de 1927, é reconhecido pela Câmara dos Deputados como o primeiro pedido de alistamento feminino realizado sob a nova legislação potiguar. O registro de Celina Guimarães Viana, em Mossoró, seria deferido e publicado primeiro, assegurando a Celina o reconhecimento histórico como primeira eleitora brasileira.

Nas eleições municipais realizadas em 1928, Júlia foi eleita para a Câmara Municipal de Natal, tornando-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Legislativo da capital potiguar. Pesquisa da UFRN registra que ela foi a candidata mais votada de seu partido e que seu mandato se estendeu de 1928 a 1931.

Sua atuação pioneira não se restringiu à política. Educadora, Júlia foi a primeira mulher a ensinar Matemática na Escola Normal do Estado, onde ingressou por concurso público. Participou também da fundação da Associação de Eleitoras Norte-rio-grandenses e da Associação de Professores do Rio Grande do Norte.

Júlia Alves Barbosa faleceu em Natal, em 1943. Sua trajetória permanece ligada a dois momentos importantes da história potiguar: a ampliação da participação feminina no processo eleitoral e a chegada das mulheres ao Poder Legislativo de Natal. Em sua homenagem, a Câmara Municipal instituiu a Comenda Júlia Alves Barbosa, destinada a reconhecer mulheres que se destacam em diferentes áreas da sociedade natalense.

Maria do Céu Fernandes, pioneira no Legislativo Estadual

Maria do Céu Fernandes nasceu em Currais Novos, em 6 de novembro de 1910. Sua trajetória política está ligada a um dos principais marcos da participação feminina no Poder Legislativo brasileiro: nas eleições de 1934, aos 24 anos, foi eleita deputada estadual pelo Partido Popular, com 12.058 votos, tornando-se a primeira mulher eleita para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e uma das grandes pioneiras da representação política feminina no país.

Diplomada em 1935, Maria do Céu integrou a Assembleia Constituinte Estadual, participando do período de reorganização institucional que resultou na Constituição do Rio Grande do Norte de 1936. Sua presença no Parlamento representou a continuidade de um movimento pioneiro iniciado poucos anos antes no estado, com o alistamento eleitoral feminino e as eleições de mulheres para cargos municipais. O Tribunal Regional Eleitoral do RN a reconhece como a primeira deputada estadual eleita pelo voto popular no Rio Grande do Norte e no Brasil.

Durante sua passagem pela Assembleia, destacou-se também pela oratória e pela atuação política, sendo lembrada pela própria instituição como uma das grandes oradoras do Legislativo potiguar. Seu mandato, entretanto, foi breve. Em novembro de 1937, a implantação do Estado Novo por Getúlio Vargas determinou o fechamento das casas legislativas, interrompendo a atividade parlamentar em todo o país.

Maria do Céu Fernandes faleceu em 2001, deixando seu nome definitivamente ligado à história da Assembleia Legislativa. Ao ocupar um espaço até então exclusivamente masculino no Parlamento estadual, tornou-se uma das principais personagens do pioneirismo político feminino que marcou o Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX.

Palmyra Wanderley, entre a poesia e a imprensa

Palmyra Guimarães Wanderley nasceu em Natal, em 6 de agosto de 1894. Poetisa, escritora e colaboradora da imprensa, destacou-se desde muito jovem no ambiente cultural norte-rio-grandense e tornou-se uma das principais vozes femininas das letras potiguares na primeira metade do século XX.

Em 1914, participou da criação da revista Via-Láctea, publicação produzida por mulheres que circulou em Natal até 1915. Palmyra também colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles A República e A Imprensa, no Rio Grande do Norte, além de periódicos publicados em outros estados. Sua atuação na imprensa ampliou a presença feminina em um espaço intelectual ainda predominantemente masculino.

Na literatura, publicou seu primeiro livro de poemas, Esmeraldas, em 1918. Sua obra de maior repercussão, entretanto, foi Roseira Brava, lançada em 1929 e reconhecida pela Academia Brasileira de Letras. Em seus versos, Palmyra registrou paisagens, lugares e personagens de Natal, ao mesmo tempo em que sua poesia transitava entre a tradição literária e as transformações estéticas que marcavam as primeiras décadas do século XX.

Palmyra também participou da fundação da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, em 1936, tornando-se a primeira ocupante da cadeira nº 20, dedicada a Auta de Souza. Sua presença na instituição reforçou uma trajetória marcada pela participação feminina na literatura, na imprensa e na vida intelectual do estado.

Faleceu em Natal, em 1978, deixando uma produção que permanece como referência para o estudo da literatura e da história cultural norte-rio-grandense.

Fonte: A Mulher Potiguar – Cinco Séculos de Presença. Natal-RN, Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine-CEPEJUL, Fundação José Augusto, 1999

Miriam Coeli, pioneira no jornalismo e nas letras

Myriam Coeli de Araújo Dantas da Silveira nasceu em Manaus*, em 19 de novembro de 1926, mas ainda criança mudou-se para São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte, cidade que considerava sua terra de formação e pertencimento. Estudou no Atheneu Norte-Rio-Grandense e formou-se em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife. Posteriormente, como bolsista do Instituto de Cultura Hispânica, estudou jornalismo na Escola Oficial de Periodismo de Madri, na Espanha.

De volta ao Rio Grande do Norte, dividiu sua atividade profissional entre o jornalismo, o magistério e a literatura. Trabalhou e colaborou em importantes veículos da imprensa potiguar, entre eles A República, Tribuna do Norte e Diário de Natal. Sua presença nas redações, a partir da década de 1950, representou uma abertura de espaços profissionais até então ocupados predominantemente por homens, sendo apontada como uma das pioneiras do jornalismo profissional feminino no Rio Grande do Norte.

Paralelamente ao jornalismo, Myriam desenvolveu importante produção literária, especialmente na poesia. Entre suas obras estão Vivência sobre vivência e Cantigas de amigo, além de outros livros publicados ao longo de sua trajetória. Sua poesia recebeu reconhecimento no meio intelectual potiguar e foi posteriormente destacada pela Academia Norte-Rio-Grandense de Letras como uma produção merecedora de maior projeção no cenário literário brasileiro.

Também exerceu o magistério, ensinando no Atheneu Norte-Rio-Grandense e no ensino superior, conciliando a atividade docente com a produção jornalística e literária. Sua atuação fez de Myriam Coeli uma presença importante na vida cultural de Natal durante a segunda metade do século XX.

Myriam faleceu em Natal, em 21 de fevereiro de 1982, aos 55 anos. Sua trajetória permanece associada não apenas à poesia, mas também à presença pioneira das mulheres na imprensa profissional potiguar.

*Registros variam entre Manaus e o Amapá

Fonte: A Mulher Potiguar – Cinco Séculos de Presença. Natal-RN, Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine-CEPEJUL, Fundação José Augusto, 1999

Zila Mamede, a poesia e o mar absoluto

Zila da Costa Mamede nasceu em 15 de setembro de 1928, em Nova Palmeira, na Paraíba. Ainda criança mudou-se com a família para Currais Novos e, posteriormente, para Natal, cidade à qual sua trajetória intelectual e profissional ficaria profundamente ligada. Poetisa e bibliotecária, tornou-se uma das principais personagens da vida cultural norte-rio-grandense no século XX.

Sua relação com os livros ultrapassou a literatura. Depois de iniciar sua atividade profissional como auxiliar de biblioteca, Zila estudou Biblioteconomia na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, concluindo o curso em 1956. De volta a Natal, teve participação decisiva na organização das bibliotecas das faculdades que deram origem à Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em 1959, assumiu a direção do recém-criado Serviço Central de Bibliotecas, que mais tarde se transformaria na Biblioteca Central da UFRN. Considerada a primeira bibliotecária do Rio Grande do Norte, contribuiu para a profissionalização da área e para a formação do sistema de bibliotecas da Universidade.

Paralelamente, construiu uma expressiva trajetória literária. Estreou em livro com Rosa de Pedra, em 1953, seguindo-se obras como Salinas (1958), O Arado (1959), Exercício da Palavra (1975) e Navegos (1978). Sua poesia alcançou reconhecimento além das fronteiras potiguares e aproximou Zila de importantes nomes da literatura brasileira, entre eles Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Zila também se destacou como pesquisadora e bibliógrafa. Entre seus trabalhos está Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, 1918–1968 — bibliografia anotada, extensa pesquisa dedicada à produção intelectual do historiador potiguar. Sua atuação reuniu, assim, duas vocações que atravessaram toda a sua vida: a criação literária e a preservação e organização do conhecimento.

Em 13 de dezembro de 1985, Zila Mamede morreu afogada enquanto nadava na Praia do Meio, em Natal, atividade que fazia habitualmente. Naquele mesmo ano, em reconhecimento à sua contribuição, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte atribuiu seu nome à instituição que ajudara a construir, hoje Biblioteca Central Zila Mamede – BCZM.

Sua obra poética e sua contribuição à Biblioteconomia fizeram de Zila Mamede uma referência duradoura da cultura potiguar — uma trajetória marcada pelos livros, pela poesia e pelo mar.

Pioneiras do voto feminino no Rio Grande do Norte

A Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, estabeleceu que, no Rio Grande do Norte, poderiam votar e ser votados, sem distinção de sexo, os cidadãos que reunissem as condições previstas na legislação. Nos meses seguintes, mulheres de diferentes municípios potiguares requereram seu alistamento eleitoral.

Em 5 de abril de 1928, quinze mulheres exerceram o direito de voto nas eleições realizadas no estado, protagonizando um acontecimento pioneiro na história eleitoral brasileira. Entre elas estavam:

Na política elas foram pioneiríssimas: as primeiras a votar e a receber o voto popular.

  • Natal: Antônia Fontoura, Carolina Wanderley, Lourdes Lamartine e Júlia Alves Barbosa, pioneira do alistamento feminino e posteriormente eleita para a Intendência Municipal de Natal.

  • Mossoró: Celina Guimarães Viana, primeira mulher oficialmente registrada como eleitora no Brasil, Beatriz Leite e Eliza da Rocha Gurgel.

  • Apodi: Maria Salomé Diógenes e Hilda Lopes de Oliveira.

  • Pau dos Ferros: Carolina Fernandes de Negreiros, Clotilde Ramalho, Francisca Dantas e Joana Cacilda de Bessa, eleita para a Intendência Municipal de Pau dos Ferros.

  • Caicó: Júlia Medeiros.

  • Acari: Martha Medeiros.

Nísia Floresta
Enquanto pelo velho e novo mundo vai ressoando o brado emancipação da mulher -, e nossa débil voz se levanta na capital do Império de Santa Cruz, clamando: educai as mulheres!
Nísia Floresta
Juvenal Lamartine
O meu Estado tem a honra de ter servido de berço a Nízia Floresta, que foi a primeira mulher na América do Sul que defendeu, em conferência pública e pelo livro, “Os direitos políticos femininos”. Penso, portanto, que não poderei melhor homenagear à memória desta ilustre patrícia do que concretizando em fatos os meus sonhos dourados que não puderam ser compreendidos pelos seus contemporâneos
Juvenal Lamartine