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Luís da Câmara Cascudo

Historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado e jornalista

Entre a cultura, a política e a memória do Legislativo

Luís da Câmara Cascudo (1898–1986) foi um dos mais importantes estudiosos da cultura brasileira. Nascido em Natal, dedicou grande parte de sua vida à pesquisa das tradições, costumes, crenças, alimentação, literatura oral e manifestações populares, construindo uma obra que ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Norte. Historiador, folclorista, professor, jornalista e advogado, publicou dezenas de livros e tornou-se uma das principais referências para o estudo da cultura popular no país.

Sua relação com a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, entretanto, possui uma característica peculiar: Cascudo esteve dos dois lados da história do Parlamento potiguar. Primeiro, ainda jovem, como integrante do Poder Legislativo; décadas depois, como pesquisador encarregado de registrar sua trajetória.

Um mandato de apenas três dias

Em 1930, Câmara Cascudo foi nomeado deputado estadual e tomou posse em 1º de outubro. O mandato, porém, seria excepcionalmente breve. Três dias depois, o movimento revolucionário que levou Getúlio Vargas ao poder alterou a organização política do país e resultou no fechamento das casas legislativas estaduais. A experiência parlamentar de Cascudo terminou praticamente no momento em que começava. O episódio seria posteriormente recordado pelo escritor com seu conhecido humor:

Câmara Cascudo
Fui deputado nomeado em 30, assumi dia 1º de outubro, no 3º dia veio a revolução e acabou com meu mandato: não tive tempo nem de salvar nem de perder o Brasil.
Câmara Cascudo

O breve mandato não significa, contudo, que sua passagem pela política tenha se limitado àqueles três dias. Cascudo participou dos intensos debates políticos que marcaram a década de 1930 e teve atuação no movimento integralista brasileiro, chegando a exercer liderança regional da Ação Integralista Brasileira no Rio Grande do Norte. Mais tarde, afastou-se da política partidária e concentrou sua vida pública sobretudo na pesquisa, no ensino, no jornalismo e na produção intelectual.

Ao exercer o mandato de 3 dias:

O historiador da Assembleia

Quatro décadas depois daquele breve mandato, Câmara Cascudo voltaria a estabelecer uma relação direta com o Legislativo potiguar — desta vez como historiador.

Em 1971, o então presidente da Assembleia Legislativa, deputado Moacyr Duarte, convidou Cascudo para pesquisar e escrever a história da instituição. O escritor aceitou a tarefa e iniciou um amplo trabalho de levantamento documental. Consultou registros legislativos, mensagens de governadores, jornais antigos e arquivos, realizando inclusive pesquisas em Recife para preencher lacunas existentes na documentação disponível no Rio Grande do Norte.

O próprio Cascudo registrou a singularidade daquele trabalho ao observar que, pela primeira vez de que tivesse conhecimento, uma Assembleia brasileira manifestava a preocupação de ter sua própria história pesquisada e escrita por alguém de fora de seus quadros parlamentares. O documento original da página preserva parte desse depoimento.

O resultado foi Uma História da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte: conclusões, pesquisas e documentário, publicado pela Fundação José Augusto em 1972. Com 488 páginas, a obra percorreu a trajetória do Poder Legislativo desde sua instalação, em 2 de fevereiro de 1835, até o período em que foi escrita, reunindo narrativa histórica e documentação sobre a instituição.

Quarenta anos depois da primeira edição, a própria Assembleia Legislativa promoveu sua reedição por meio do Memorial do Legislativo Potiguar, reafirmando o valor da obra como referência para a preservação da memória parlamentar do Rio Grande do Norte.

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Entre personagem e historiador


A relação de Câmara Cascudo com a Assembleia é, portanto, bastante incomum. Foi personagem de sua história e, posteriormente, tornou-se um de seus principais narradores. O mandato de apenas três dias tornou-se uma passagem curiosa de sua biografia; o trabalho realizado quatro décadas depois, porém, deixou uma contribuição permanente para o conhecimento e a preservação da história do Legislativo potiguar.

O convite que deu origem à obra

Em 1971, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Moacyr Duarte, formalizou o convite para que Câmara Cascudo escrevesse a história do Poder Legislativo potiguar.

Em resposta, Cascudo relatou que, desde junho de 1953, havia concluído um amplo estudo sobre a história da Assembleia Legislativa, reunindo uma documentação dispersa e, por vezes, tumultuada, proveniente de arquivos e de publicações da imprensa, testemunhos da vida coletiva da cidade.

O convite e a resposta do historiador, aceitando a tarefa que resultaria na publicação da obra no ano seguinte.