O Clero Norte-Rio-Grandense e sua militância política
Igreja, sociedade e política no Rio Grande do Norte
Durante boa parte da história brasileira, as fronteiras entre vida religiosa, organização social e atuação política foram muito diferentes das atuais. Em uma sociedade na qual o acesso à educação formal era restrito, membros do clero figuravam entre os grupos com maior formação intelectual e presença nas comunidades.
No Rio Grande do Norte, essa condição contribuiu para uma participação expressiva de sacerdotes na vida pública. Ao longo dos séculos XIX e XX, religiosos exerceram mandatos como vereadores, deputados provinciais e estaduais, deputados gerais e federais, senadores e até funções no Governo do Estado.
Essa presença, entretanto, não constituiu um movimento político uniforme. Em diferentes épocas, sacerdotes estiveram associados a posições, movimentos e projetos distintos. A relação entre Igreja, sociedade e política também se transformou profundamente ao longo do tempo.
Cargos Exercidos:
Fonte: “O clero norte-riograndense e sua militância política de 1817 a 1999/João Medeiros Filho. Rio de Janeiro: Letra Capital,2005.
Sacerdotes, revolução e novas ideias políticas
Antes mesmo da criação da Assembleia Provincial, membros do clero já participavam ativamente dos movimentos políticos que agitavam o Nordeste nas primeiras décadas do século XIX. A Revolução Pernambucana de 1817, de caráter republicano e contrário ao domínio da monarquia portuguesa, alcançou o Rio Grande do Norte e contou com expressiva participação de religiosos, razão pela qual também ficou conhecida como “Revolução dos Padres”.
Entre seus protagonistas estava o potiguar padre Miguel Joaquim de Almeida Castro, Frei Miguelinho, que exerceu papel de destaque no movimento revolucionário. Com a derrota da revolução, foi preso, condenado por crime de lesa-pátria e executado na Bahia, tornando-se um dos personagens mais emblemáticos da participação do clero norte-rio-grandense nas lutas políticas do período.
Julgamento de Frei Miguelinho, Antônio Parreiras, 1918
Acervo da Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte.
A efervescência política prosseguiu nos anos seguintes. Em 1824, a Confederação do Equador voltou a mobilizar as províncias do Norte em torno de questões como autonomia provincial, organização constitucional e limites do poder central. O movimento teve seu centro em Pernambuco e alcançou também o Rio Grande do Norte, cuja adesão foi formalizada por representantes enviados ao Recife.
Esses movimentos ajudam a compreender um aspecto importante da sociedade daquele período: a atuação dos sacerdotes não se restringia à vida religiosa. Religião, formação intelectual e participação política ocupavam espaços muito mais próximos do que na sociedade contemporânea. Essa presença voltaria a se manifestar de forma particularmente expressiva poucos anos depois, na composição da primeira Assembleia Legislativa Provincial.
1817 Revolução Pernambucana → 1824 Confederação do Equador → 1834 Primeira eleição provincial → 1835 Legislatura dos Padres
A Legislatura dos Padres
A forte presença do clero marcou a formação do próprio Poder Legislativo provincial. Na eleição inaugural de 1834, cerca de 120 nomes disputaram os votos de apenas 70 eleitores. Dos vinte representantes escolhidos para a primeira legislatura, nove eram sacerdotes.
A expressiva participação religiosa refletia características da sociedade daquele período. Os membros do clero integravam uma parcela relativamente instruída da população e exerciam influência não apenas religiosa, mas também intelectual e social em suas comunidades.
120
Candidatos
70
Eleitores
20
Deputados
9
Padres
Para além dos mandatos
A relação entre o clero e a vida pública potiguar não se limitou à ocupação de cargos eletivos. Ao longo do século XX, setores da Igreja Católica tiveram participação em iniciativas de educação popular e organização social, especialmente no meio rural.
Experiências como as escolas radiofônicas ampliaram o alcance da alfabetização e da educação de adultos, enquanto outras iniciativas envolveram organização de trabalhadores rurais, questões sociais do campo e, posteriormente, as Comunidades Eclesiais de Base.
Essas experiências pertencem a outro momento da relação entre Igreja e sociedade: menos centrado na presença direta de sacerdotes nos parlamentos e mais relacionado à atuação social junto às comunidades.
Padre Francisco de Brito Guerra
Primeiro Presidente da Assembleia Provincial
Sacerdote e político, integrou a primeira legislatura provincial e foi escolhido para presidir a Assembleia. Posteriormente exerceu os mandatos de deputado geral e senador do Império, permanecendo no Senado entre 1837 e 1845.
Monsenhor João da Matha Paiva
Presidente da Assembleia Constituinte
Eleito deputado à Assembleia Constituinte e Legislativa em 1935, tornou-se seu presidente e foi reeleito no ano seguinte. Sob sua presidência, a Assembleia promulgou, em 22 de fevereiro de 1936, a quarta Constituição do Rio Grande do Norte. João da Matha chegou a exercer interinamente o Governo do Estado em quatro oportunidades entre 1936 e 1937.
Monsenhor Walfredo Gurgel
Do Legislativo ao Governo do Estado
Walfredo foi deputado federal constituinte em 1945, vice-governador, presidente da Assembleia Legislativa entre 1961 e 1963, senador da República e governador do Rio Grande do Norte. Formado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana, em Roma, atravessou diferentes instâncias da representação política potiguar e nacional.
Padre José Dantas Cortez
O último sacerdote eleito deputado estadual no RN
Eleito deputado estadual por dois mandatos consecutivos, de 1979 a 1986, tornando-se o último integrante do clero potiguar a exercer um cargo político eletivo. Sua passagem pelo Parlamento encerra simbolicamente um longo período da história política norte-rio-grandense, iniciado ainda no século XIX, em que sacerdotes ocuparam de forma recorrente espaços de representação política.

