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Nos Passos da Memória: os Paços da ALRN

Uma trajetória pelas sedes que abrigaram o Poder Legislativo do Rio Grande do Norte.

A história da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte também pode ser contada pelos espaços que a acolheram. Desde a primeira eleição para a Assembleia Provincial, realizada em 1834, até a inauguração de sua atual sede, o Legislativo ocupou igrejas, edifícios públicos, espaços culturais e imóveis adaptados às suas atividades.

Ao longo dessa trajetória, mudanças de endereço acompanharam transformações políticas, institucionais e urbanas do Rio Grande do Norte. Alguns desses edifícios permanecem na paisagem de Natal; outros existem apenas na memória e nos registros históricos.

Entre todos esses espaços, apenas dois foram construídos especificamente para abrigar o Poder Legislativo: o Palacete da Junqueira Aires, inaugurado em 1906, e o atual Palácio José Augusto, inaugurado em 1983

Igreja Nossa Senhora da Apresentação

Antiga Catedral, em 10 de novembro de 1834

Fundada em 1599, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação é apontada como a primeira igreja construída no Rio Grande do Norte e está diretamente ligada à formação do núcleo urbano de Natal. Foi nela que, em 25 de dezembro de 1599, ocorreu a Missa de Fundação da cidade. Em 1601, por alvará da Coroa portuguesa, foi criada a Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação, a primeira em território potiguar.

O templo atravessou também um dos períodos mais conturbados da história colonial do RN. Durante o domínio holandês, iniciado em 1633, a igreja foi transformada em templo calvinista. Naquele período, era pároco da matriz o padre Ambrósio Francisco Ferro, que anos mais tarde, refugiado, seria morto em Uruaçu juntamente com outros 80 colonos católicos, episódio que integra a história dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu. Ao serem expulsos da Capitania pelos portugueses, em 1654, os holandeses incendiaram o templo, destruindo também registros e documentos dos primeiros tempos de Natal, contribuindo para as lacunas que ainda cercam parte da história inicial da cidade.

Quase dois séculos depois, a igreja voltaria a ser cenário de um acontecimento marcante, desta vez relacionado à formação política do RN. Em 10 de novembro de 1834, realizou-se ali a primeira eleição para a Assembleia Legislativa Provincial. Cerca de 120 nomes disputaram os votos de apenas 70 eleitores, que escolheram os 20 representantes da primeira legislatura provincial — nove deles integrantes do clero.

Assim, um dos lugares mais antigos da memória de Natal passou também a integrar a história da representação política potiguar e o início da trajetória institucional que daria origem à atual Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.

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Câmara Municipal de Natal

2 de fevereiro de 1835 · Primeira instalação da Assembleia Provincial

Após a eleição dos primeiros representantes provinciais, era necessário encontrar um espaço para a instalação da nova Assembleia. Em 31 de outubro de 1834, o presidente da Província, Basílio Quaresma Torreão, encaminhou ofício à Câmara Municipal de Natal solicitando um local adequado ao funcionamento do Legislativo.

A Câmara, presidida por Manuel Gabriel de Carvalho, concordou em ceder o edifício onde realizava suas próprias reuniões. Assim, em 2 de fevereiro de 1835, a Assembleia Legislativa Provincial instalou-se na antiga Casa de Câmara e Cadeia, construção característica da organização administrativa das cidades do período colonial.

A solução, entretanto, logo gerou dificuldades. Para abrigar a Assembleia, a própria Câmara Municipal deixou sua sede e passou a reivindicar um espaço para suas reuniões. Segundo o registro reproduzido por Câmara Cascudo, os dirigentes municipais argumentavam que a legislação determinava que a Câmara deveria reunir-se em edifício próprio, e o impasse entre as instituições prolongou-se por meses.

A necessidade de uma sede adequada para o Legislativo já se fazia evidente. Em 1837, a Comissão de Fazenda e Orçamento chegou a apresentar projeto autorizando a construção de um edifício próprio para a Assembleia Provincial. A concretização desse objetivo, porém, ainda levaria décadas.

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Edifício "A Noiva"

1840–1860 · Duas décadas de funcionamento

Sem que a desejada sede própria tivesse sido construída, a Assembleia Provincial transferiu-se, em 1840, para um sobrado situado na Rua da Conceição, nº 601, onde funcionaria durante aproximadamente vinte anos.

Considerado no material histórico como o primeiro sobrado privado da Capitania, o edifício tornou-se conhecido como “A Noiva”, denominação associada à sua forma arquitetônica, que lembraria a cauda ou o véu de um vestido de noiva. A Assembleia ocupava o pavimento superior do imóvel.

A história do prédio continuaria ligada à vida política e social potiguar mesmo depois da saída do Legislativo. Nas primeiras décadas do século XX, abrigou atividades sindicais associadas à trajetória de Café Filho, que posteriormente se tornaria o primeiro norte-rio-grandense a ocupar a Presidência da República. O imóvel abriga atualmente o Centro Cultural Presidente Café Filho, espaço que agora está sob a tutoria da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.

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Atheneu Norte-Riograndense

1866–1870 · Uma sede provisória

Entre 1866 e 1870, a Assembleia Provincial passou a realizar suas atividades no edifício do Atheneu Norte-Rio-Grandense (segunda instituição de ensino mais antiga do país em atividade), então localizado na Avenida Junqueira Aires.

A permanência no local, contudo, foi marcada pelas limitações das instalações. Em 1870, o presidente da Província, Silvino Elvídio da Cunha, descreveu o espaço destinado ao Legislativo como um “provisório paço”, instalado em sala pequena e sem as condições de asseio e dignidade consideradas necessárias ao funcionamento da instituição.

A precariedade reforçava uma questão que acompanhava a Assembleia desde seus primeiros anos: a necessidade de dispor de instalações mais adequadas às atividades parlamentares.

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Palacete Provincial

1874–1889 · O último Paço do período imperial

Em junho de 1873, foi entregue à Província, pelo coronel Bonifácio Francisco Pinheiro da Câmara, vice-presidente em exercício, o edifício que ficaria conhecido como Palacete Provincial, localizado na atual Praça Sete de Setembro (outrora Travessa do Tesouro), com entrada principal pela Rua da Conceição. A partir de 1874, a Assembleia Provincial passou a funcionar em suas dependências.

O Palacete reunia diferentes instituições e serviços públicos, entre eles os Correios, a Câmara Municipal e o Tribunal do Júri. A concentração de repartições no mesmo edifício respondia à intenção de atender às necessidades da administração provincial de maneira mais econômica, satisfazendo, assim, o presidente Olinto Meira.

Foi nesse edifício que o Legislativo potiguar viveu os últimos anos do Império. Ali, os presidentes da Província apresentavam aos deputados seus pronunciamentos, mensagens e relatórios. Em 16 de setembro de 1889, realizou-se no Palacete a última sessão dos deputados provinciais antes da mudança do regime político brasileiro.

Posteriormente, em 1900, no governo de Alberto Maranhão, o edifício tornou-se sede do Poder Executivo estadual, funcionando como tal até 1995. Atualmente abriga a Pinacoteca do Estado.

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Palacete da Junqueira Aires

1906–1920 · A primeira sede construída para o Legislativo

A aspiração por uma sede própria, registrada desde 1837, somente se concretizaria no início do século XX. Em mensagem apresentada em julho de 1905, o governador Augusto Tavares de Lyra tratou da construção de um edifício destinado ao Congresso Estadual, iniciativa que já vinha sendo organizada desde 1902.

Parte dos recursos provenientes da arrecadação de loterias federais foi destinada às obras do novo prédio. Em 1906, Tavares de Lyra entregou ao Congresso Estadual sua nova sede, localizada na Avenida Junqueira Aires, na Cidade Alta.

O Palacete marcou um momento singular na trajetória dos Paços: foi o primeiro edifício construído especificamente para abrigar o Poder Legislativo do Rio Grande do Norte. O imóvel, apontado no material histórico como importante exemplar do estilo Art Nouveau no Estado, pertence atualmente à Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Rio Grande do Norte

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“Natal Club”

1920–1921 · Uma sede temporária

Durante as obras de reforma do Palacete da Junqueira Aires, o Congresso Estadual precisou novamente ocupar instalações provisórias. Nos anos de 1920 e 1921, suas atividades foram transferidas para o edifício do Natal Club, situado na Rua João Pessoa, na Cidade Alta.

De linhas simples e grandes janelas, o prédio acabou ganhando um apelido bem-humorado no debate político da época: jornais de oposição passaram a chamá-lo de “Lex Club”, numa referência à presença temporária do Poder Legislativo em suas dependências.

 

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Reocupação do Palacete da Junqueira Aires

1922–1930 · O retorno e a interrupção dos trabalhos legislativos

Concluídas as reformas, o Congresso Estadual retornou ao Palacete da Junqueira Aires em 1922, permanecendo ali até 1930.

Naquele ano, as transformações políticas ocorridas no país interromperam novamente a trajetória institucional do Legislativo estadual. Com a Revolução de 1930 e a chegada de Getúlio Vargas ao poder, a Assembleia foi dissolvida.

Entre os parlamentares atingidos pela dissolução estava Luís da Câmara Cascudo, cuja breve passagem pela Assembleia ficou registrada com humor pelo próprio escritor: seu mandato havia começado praticamente às vésperas da Revolução. A atividade legislativa seria retomada posteriormente, mas voltaria a ser interrompida durante o Estado Novo.

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Teatro Carlos Gomes (Atual TAM)

1947 · O palco da retomada legislativa

A implantação do Estado Novo, em 1937, provocou a dissolução dos Legislativos no país. Somente uma década depois, em 1947, o Rio Grande do Norte voltaria a reunir representantes para a elaboração de uma nova Constituição estadual.

Para a instalação da Assembleia Constituinte foi escolhido o Teatro Carlos Gomes, na Ribeira, atual Teatro Alberto Maranhão. Ali foram eleitos os integrantes da Mesa e iniciados os trabalhos constituintes, marcando simbolicamente a retomada da atividade parlamentar após o período de interrupção institucional.

Construído durante o governo de Ferreira Chaves e concluído na administração de Alberto Maranhão, o teatro já ocupava posição de destaque na vida cultural de Natal. Em 1947, passou também a integrar, ainda que brevemente, a memória do Poder Legislativo potiguar.

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Palácio Amaro Cavalcanti

1947–1963 · Uma nova sede em Petrópolis

Ainda em 1947, a Assembleia deixou as instalações provisórias do Teatro Carlos Gomes e transferiu-se para um edifício na Avenida Getúlio Vargas, no bairro de Petrópolis. O imóvel havia sido adaptado e ampliado durante a administração do prefeito de Natal, Sylvio Piza Pedroza, para receber as atividades legislativas.

Em agosto de 1948, o deputado Antônio Soares Filho apresentou indicação para que a sede passasse a ser denominada Palácio Amaro Cavalcanti, homenagem ao jurista e político norte-rio-grandense.

A Assembleia permaneceu no edifício por aproximadamente dezesseis anos. Atualmente, o imóvel abriga o Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte.

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Sindicato dos Contabilistas

1963–1967 · O retorno à Cidade Alta

Em 15 de agosto de 1963, a Assembleia Legislativa transferiu suas atividades para a sede do Sindicato dos Contabilistas do Estado, localizada na Praça André de Albuquerque, na Cidade Alta.

O Legislativo permaneceu no local até 1967, em mais um período de ocupação provisória de sua longa trajetória por diferentes espaços da capital potiguar.

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Instituto de Previdência dos Servidores do Estado

1967–1983 · O nascimento do nome Palácio José Augusto

Em 28 de março de 1967, a Mesa da Assembleia Legislativa deliberou pela transferência de suas atividades para um espaço anexo ao edifício do Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Norte (IPE/RN), na Rua Jundiaí. A nova sede oferecia instalações mais amplas para o funcionamento do Parlamento estadual.

Foi durante a permanência nesse endereço que surgiu a denominação Palácio José Augusto. Após o falecimento do ex-governador José Augusto Varela, em maio de 1971, o deputado Dary Dantas propôs que seu nome passasse a identificar a sede do Legislativo. A proposta foi aprovada em 19 de julho de 1971, por doze votos e uma abstenção.

Assim, o nome Palácio José Augusto antecede a construção do edifício atual e acompanhou a Assembleia quando ela finalmente ganhou sua nova sede.

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Palácio José Augusto

Desde 1983 · A sede atual

Em 31 de janeiro de 1983, foi inaugurada a atual sede da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, consolidando uma trajetória iniciada quase 150 anos antes em diferentes espaços da cidade de Natal.

A construção do Palácio José Augusto foi administrada, em diferentes etapas, pelos deputados Alcimar Torquato, Luís Antônio Vidal e Carlos Augusto Rosado e contou, segundo o material histórico, com a colaboração dos governos de Tarcísio Maia e Lavoisier Maia.

Ao longo dos anos, o complexo passou por ampliações para acompanhar o crescimento das atividades legislativas e administrativas. Em 1992, foram inauguradas intervenções que incluíram a ampliação de gabinetes e áreas administrativas e a implantação do sistema de informática. Nova ampliação foi inaugurada em 2002.

O Palácio José Augusto é, ao lado do Palacete da Junqueira Aires, um dos únicos edifícios dessa trajetória construídos especificamente para abrigar o Poder Legislativo estadual.

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Uma história entre edifícios e memórias

Ao longo de sua trajetória, o Poder Legislativo potiguar ocupou diferentes espaços de Natal, acompanhando as transformações políticas, institucionais e urbanas da cidade. Entre todos eles, apenas o Palacete da Junqueira Aires e o atual Palácio José Augusto foram construídos especificamente para abrigar o Parlamento estadual.

Alguns desses lugares permanecem preservados e hoje cumprem novas funções. Outros desapareceram da paisagem urbana, como a antiga Casa de Câmara e Cadeia, demolida em 1909, e o Natal Club. Preservar sua história é também manter viva a memória dos espaços onde se construiu a representação política do Rio Grande do Norte.