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Vultos Sacerdotais

Ao longo da história do Rio Grande do Norte, diferentes membros do clero ultrapassaram os limites da atuação estritamente religiosa e participaram da vida política, intelectual e social do Estado. Revolucionários, parlamentares, educadores e agentes de transformação social, esses personagens ajudam a compreender as diferentes formas assumidas pela relação entre Igreja e sociedade em distintos períodos históricos.

Frei Miguelinho

1768–1817

Religião e revolução

Miguel Joaquim de Almeida e Castro, conhecido como Frei Miguelinho, nasceu em Natal, em 1768. Ainda jovem seguiu para Pernambuco, onde ingressou na Ordem Carmelita e adotou o nome religioso de Frei Miguel de São Bonifácio. Sua trajetória seria marcada não apenas pelo sacerdócio, mas também pela atividade intelectual e pelo envolvimento nas ideias políticas que circulavam no Nordeste no início do século XIX. Foi professor de Retórica no Seminário de Olinda, importante centro de formação religiosa e intelectual daquele período.

Em 1817, Miguelinho tornou-se um dos personagens de destaque da Revolução Pernambucana, movimento que contestou o domínio da monarquia portuguesa e propôs a formação de um governo republicano. A expressiva participação de religiosos entre seus integrantes contribuiu para que o episódio também ficasse conhecido como “Revolução dos Padres”. Miguelinho integrou o núcleo político do movimento e exerceu funções no governo revolucionário instalado em Pernambuco.

A experiência republicana durou pouco. Com a repressão das forças da Coroa, Miguelinho foi preso em maio de 1817 e conduzido posteriormente para Salvador. Julgado por sua participação na revolução, foi condenado por crime de lesa-majestade e executado por fuzilamento em 12 de junho de 1817. Sua morte transformou-o em um dos símbolos da Revolução Pernambucana e, posteriormente, em personagem de destaque da memória republicana brasileira.

No Rio Grande do Norte, Frei Miguelinho ocupa lugar singular entre os religiosos ligados à história política: sua atuação antecedeu em quase duas décadas a criação da Assembleia Legislativa Provincial. Sua trajetória ajuda a compreender que a presença do clero na vida pública potiguar já se manifestava antes da organização do Parlamento provincial.

Padre Francisco de Brito Guerra

1777–1845

Da primeira legislatura ao Senado do Império

Francisco de Brito Guerra nasceu em 18 de abril de 1777, na Fazenda Jatobá, no atual município de Campo Grande. Depois dos primeiros estudos no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, ingressou no Seminário de Olinda, instituição criada em 1800 e que teve papel importante na formação intelectual de religiosos do Nordeste. Ordenado sacerdote, estabeleceu uma relação duradoura com o Seridó, exercendo atividades religiosas e dedicando-se também ao ensino. Foi professor de Latim e participou da vida intelectual da província, sendo fundador e colaborador de O Natalense, primeiro jornal publicado no Rio Grande do Norte.

Sua trajetória política começou antes mesmo da instalação da Assembleia Provincial. Brito Guerra representou o Rio Grande do Norte na Câmara dos Deputados do Império, tomando posse como deputado geral em 1831 e voltando a exercer o mandato na legislatura iniciada em 1834. Sua atuação, portanto, inseriu o sacerdote potiguar nos grandes debates políticos do período regencial.

Com a criação das Assembleias Legislativas Provinciais pelo Ato Adicional de 1834, Brito Guerra foi eleito para a primeira legislatura norte-rio-grandense. Na sessão de instalação, em 2 de fevereiro de 1835, foi escolhido presidente da Assembleia Provincial, recebendo 16 dos 17 votos dos deputados presentes. Permaneceu na Presidência até março daquele ano, quando optou por dedicar-se ao mandato de deputado geral.

Sua carreira alcançaria posteriormente o Senado do Império. Tomou posse como senador em 1837, função que, no sistema constitucional imperial, era vitalícia, permanecendo ligado à instituição até sua morte, no Rio de Janeiro, em 26 de fevereiro de 1845.

Sacerdote, educador e parlamentar, Brito Guerra representa de maneira particularmente expressiva a presença do clero na formação das instituições políticas potiguares. De deputado no Parlamento do Império a primeiro presidente da Assembleia Provincial, sua trajetória está diretamente relacionada aos primeiros passos da representação legislativa no Rio Grande do Norte.

Monsenhor João da Matha Paiva

1897–1965

Da Assembleia ao exercício do Governo

João da Matha Paiva nasceu em 19 de fevereiro de 1897, em Jardim de Angicos, nos sertões de Lajes. Sua trajetória reuniu sacerdócio, educação e atividade política. Foi aluno e diretor do Colégio Santo Antônio, em Natal, professor catedrático de Filosofia do Atheneu Norte-Rio-Grandense e reitor do Seminário de São Pedro, instituições de destaque na formação educacional e religiosa do estado.

Em 1935, foi eleito deputado para a Assembleia Constituinte e Legislativa do Rio Grande do Norte e escolhido para presidi-la. O período era particularmente importante para a reorganização institucional do estado. Sob sua presidência, em 22 de fevereiro de 1936, a Assembleia promulgou a quarta Constituição estadual. João da Matha seria reeleito para a Presidência no ano seguinte.

A Constituição potiguar de 1936 atribuiu ao presidente da Assembleia uma responsabilidade que tornaria sua trajetória ainda mais singular. Como o texto constitucional não previa o cargo de vice-governador, cabia ao chefe do Poder Legislativo substituir o governador em seus impedimentos. Nessa condição, João da Matha Paiva exerceu interinamente o Governo do Rio Grande do Norte em quatro oportunidades, entre junho de 1936 e setembro de 1937.

Sua experiência parlamentar seria interrompida pelas transformações políticas nacionais. Com a implantação do Estado Novo, em novembro de 1937, as casas legislativas foram fechadas, encerrando aquele breve período constitucional.

A trajetória de João da Matha ocupa, assim, um lugar particular entre os sacerdotes que participaram da política norte-rio-grandense. Mais do que parlamentar, esteve à frente da Assembleia durante um momento de reorganização constitucional e, em decorrência da própria ordem institucional então vigente, chegou ao exercício temporário da chefia do Poder Executivo estadual.

Monsenhor Walfredo Gurgel

1908–1971

Do sacerdócio ao Governo do Estado

Nascido em Caicó, em 2 de dezembro de 1908, Walfredo Dantas Gurgel teve uma trajetória marcada pela religião, pela educação e pela vida pública. Depois dos estudos no Seminário de São Pedro, aprofundou sua formação em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde cursou Filosofia e Teologia. De volta ao Rio Grande do Norte, foi professor e reitor do Seminário de São Pedro, vigário de Acari e de Caicó e fundador e dirigente do Ginásio Diocesano Seridoense. Recebeu posteriormente o título de monsenhor.

Sua entrada na política nacional ocorreu no processo de redemocratização que sucedeu o Estado Novo. Eleito em 1945, participou da Assembleia Nacional Constituinte de 1946 e exerceu mandato na Câmara dos Deputados, onde integrou a Comissão de Educação e Cultura. Posteriormente, voltou a exercer mandato federal e consolidou sua presença na vida política do Rio Grande do Norte.

Em 1960, foi eleito vice-governador do estado. Naquele período, o vice-governador exercia também a Presidência da Assembleia Legislativa, função que Walfredo desempenhou de fevereiro de 1961 a janeiro de 1963. Deixou o cargo após sua eleição para o Senado Federal.

Sua carreira alcançou o ponto mais alto em 1965, quando foi eleito governador do Rio Grande do Norte. Assumiu em janeiro de 1966 e cumpriu o mandato até 1971. Dessa forma, ao longo de aproximadamente 25 anos de vida pública, Walfredo passou pela Câmara dos Deputados, Assembleia Legislativa, Vice-Governadoria, Senado Federal e Governo do Estado.

Poucos personagens sintetizam de maneira tão ampla a presença do clero na política potiguar do século XX. Sacerdote e educador antes de se projetar como parlamentar, Walfredo Gurgel percorreu diferentes níveis da representação política até alcançar a chefia do Executivo estadual, tornando-se uma das figuras mais destacadas dessa relação histórica entre Igreja, educação e vida pública no Rio Grande do Norte.

Imagem complementar ideal: formação sacerdotal/foto como padre + Presidência da ALRN + fotografia oficial como governador. Aqui valeria muito a pena termos três imagens de fases diferentes da vida, porque visualmente contaríamos a transformação do personagem.

Padre José Dantas Cortez

1934–2001

O último sacerdote eleito deputado estadual

Natural de Acari, no Seridó potiguar, José Dantas Cortez nasceu em 1934. Foi ordenado sacerdote em 30 de setembro de 1962, por Dom Manoel Tavares de Araújo. Além da atividade religiosa, desenvolveu atuação como professor universitário e advogado, reunindo formação intelectual, trabalho pastoral e participação na vida pública.

Sua trajetória política esteve fortemente relacionada às questões sociais do interior do estado. Eleito deputado estadual por dois mandatos consecutivos, de 1979 a 1986, levou à Assembleia Legislativa demandas das populações rurais, particularmente do Seridó. Segundo registro da Arquidiocese de Natal, sua atuação parlamentar voltou-se para a melhoria das condições de vida dos agricultores e para a obtenção de recursos e políticas públicas nas áreas de saúde e educação.

Essa ligação com o sertão também esteve presente em sua atuação sacerdotal. Em Florânia, participou da restauração do Santuário de Nossa Senhora das Graças e criou a chamada Missa do Vaqueiro, iniciativa relacionada à valorização do homem do campo e de uma das atividades tradicionais da cultura sertaneja.

José Dantas Cortez ocupa uma posição especialmente simbólica nesta galeria. De acordo com a Arquidiocese de Natal, foi o último representante do clero potiguar a exercer cargo político eletivo, encerrando uma tradição que atravessou diferentes períodos da história norte-rio-grandense.

Se Francisco de Brito Guerra está associado aos primeiros momentos da Assembleia Provincial, ainda no Império, José Dantas Cortez representa o outro extremo dessa longa trajetória. Entre ambos, mais de um século de história revela as diferentes maneiras pelas quais sacerdotes participaram da representação política e da vida pública do Rio Grande do Norte.